
Celso Antonio Pereira - em 13/08/09
Clara Francisca Gonçalves, nasceu em Cedro em 12/08/1942 (ou 1943 como consta em algumas fontes), hoje Caetanópolis-MG, onde viveu até aos 16 anos.
Ficou órfã de pai aos 2 anos de idade e de mãe aos 6 anos, sendo criada por sua irmã Dindinha e pelo seu irmão José. Aos 14 anos trabalhou como tecelã numa fábrica de tecidos de sua cidade. Seu pai, Sr Manuel era marceneiro de profissão e também violeiro, participante das festas de Folia de Reis.
Ela herdou do pai o gosto pela música e cresceu ouvindo Carmem Costa, Ângela Maria e, principalmente, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira, das quais sempre teve muita influência.
Clara cantava desde criança. Cantou no coro da igreja que freqüentava até que em 1952, ainda menina, venceu seu primeiro concurso de canto organizado em sua cidade, interpretando “Recuerdos de Ypacaraí”.
Aos 16 anos, por conta de uma briga entre seu irmão José e um ex-namorado que decidiu espalhar supostos detalhes da intimidade deles pela cidade onde moravam, teve que se mudar para Belo Horizonte, pois a briga teve final trágico com a morte do rapaz.
Em BH também trabalhou como tecelã durante o dia. Estudava a noite e cantava nos finais de semana no Coral Renascença, na igreja do bairro onde morava. Ali conheceu o violonista Jadir Ambrósio (compositor do 'Hino do Cruzeiro'), que, admirado com a voz da menina a levou a vários programas de rádio. Até então se apresentava com o nome de Clara Francisca.
No início da década de 1960 conheceu Aurino Araújo (irmão de Eduardo Araújo) que a levou para conhecer muitos artistas e tornou-se seu namorado por dez anos. Por influência do produtor musical Cid Carvalho, mudou o nome para Clara Nunes (sobrenome da mãe).
Nesse ano foi a vencedora do concurso “A voz de ouro ABC” na fase mineira, com a música de Vinicius de Moraes “Serenata do Adeus”, gravada anteriormente por Elizeth Cardoso. Logo depois, com a música “Só Adeus”, de Jair Amorim e Evaldo Gouveia, obteve o 3º lugar na finalíssima realizada em São Paulo.
Por essa época, foi contratada pela Rádio Inconfidência de Belo Horizonte.
Trabalhou como crooner de boates onde conheceu o baixista Bituca, apelido de Milton Nascimento na época.
Durante três anos seguidos foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Na época, apareceu pela primeira vez na televisão, no programa de Hebe Camargo em Belo Horizonte. Logo depois, em 1963, iniciou um programa na TV Itacolomi, “Clara Nunes apresenta”, que foi ao ar por um ano e meio, onde se apresentavam artistas de reconhecimento nacional, como Altemar Dutra e Ângela Maria, entre outros.
No ano de 1965 foi para o Rio de Janeiro. Se apresentou em alguns programas de TV e fez teste como cantora na gravadora Odeon, lançando um LP pela Rádio Inconfidência de Minas Gerais, ao lado de outros artistas. Em 1966 foi contratada pela gravadora e gravou seu primeiro LP “ A Voz Adorável de Clara Nunes” com boleros e canções.
No ano de 1968, gravou o segundo disco, “Você passa eu acho graça”, título retirado da música homônima de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, sendo este seu primeiro sucesso, fixando sua presença no samba por sugestão do próprio Ataulfo, que considerava sua voz ideal para esse gênero.
Em 1969 a cantora ganhou o primeiro lugar no “I Festival da Canção Jovem de Três Rios” com a música “Pra que obedecer” (Paulinho da Viola e Luís Sérgio Bilheri) e ainda classificou-se em terceiro lugar com a composição “Encontro”, de Elton Medeiros e Luís Sérgio Bilheri.
Em 1970 a convite de Ivon Curi, apresentou-se em Luanda, na África. No ano seguinte, gravou o quarto LP, no qual interpretou “Ilu ayê” (Norival Reis e Silvestre Davi da Silva), samba-enredo da Portela
Em 1972, lançou o LP “Clara, Clarice, Clara”, no qual interpretou “Morena do mar” (Dorival Caymmi), “Vendedor de caranguejo” (Gordurinha) e a faixa-título, “Clara Clarice Clara”, de autoria de Caetano Veloso e Capinam.
Gravou a música “Tristeza, pé no chão”, de Armando Fernandes, chegando o compacto simples a vender mais de 100 mil cópias.
Lançou em 1973 o LP “Clara Nunes”. Neste mesmo ano, estreou o show “O poeta, a moça e o violão”, juntamente com Vinicius de Moraes e Toquinho, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Também em 1973, foi convidada pela rádio e televisão portuguesa a fazer shows em Portugal, cumprindo uma temporada em Lisboa, quando percorreu alguns outros países da Europa, como a Suécia, onde gravou um especial ao lado da Orquestra Sinfônica de Estocolmo para a TV local.
Em 1974 integrou a comissão que representou o Brasil no “Festival do Midem”, em Cannes, na França. Nesse mesmo ano, lançou somente na Europa o LP “Brasília”, fonte para o LP “Alvorecer”, que chegou às paradas de sucesso da época através de três músicas: “Contos de areia” (Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento), “Menino Deus” (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) e “Meu sapato já furou” (Mauro Duarte e Elton Medeiros).
Ainda em 1974, ao lado de Paulo Gracindo, atuou em “Brasileiro profissão esperança”, espetáculo de Paulo Pontes, referente à vida da cantora e compositora Dolores Duran e do compositor e jornalista Antônio Maria. O show ficou em cartaz no Canecão até 1975, gerando disco homônimo.
Ainda neste ano, casou-se com o poeta, letrista e produtor Paulo César Pinheiro. Nesta época, percorreu vários países da Europa em turnê e lançou o LP “Claridade”, seu disco de maior sucesso, com as músicas “O mar serenou” (Candeia) e “Juízo final” de autoria de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares.
Alem disso, bateu o recorde de vendagem feminina com o disco “Claridade” e ainda puxou na avenida o samba-enredo da Portela, “Macunaíma, herói da nossa gente”, de autoria de Norival Reis e Davi Antônio Correia, com o qual a escola classificou-se em 5º lugar no Grupo 1.
Em 1976, gravou o LP “Canto das três raças”, faixa-título, samba de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, grande sucesso da cantora. No ano seguinte, inaugurou o Teatro Clara Nunes com o show “Canto das três raças”. Lançou o disco “As forças da natureza”, com a participação de Clementina de Jesus numa das faixas. Nesse disco Clara Nunes apareceu pela primeira vez como compositora na faixa “À flor da pele”, feita em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.
No ano de 1978, lançou o LP “Guerreira”, interpretando vários ritmos brasileiros, além do samba, sua marca registrada. Lançou outro disco, “Esperança”, com destaque para a faixa “Feira de Mangaio”, de autoria de Sivuca e Glórinha Gadelha. Participou ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia, entre outros, do show no Riocentro, que ficaria marcado na história política do país devido à explosão de uma bomba.
Em 1980, participou dos LPs “Cabelo de milho”, de Sivuca, e “Fala meu povo”, de Roberto Ribeiro. Nesse ano, ao lado de Elba Ramalho, Djavan, Dorival Caymmi e Chico Buarque, entre outros, viajou para Angola representando o Brasil. Por essa época Chico Buarque compôs em sua homenagem “Morena de Angola”, incluída no LP “Brasil mestiço”.
Estreou em 1981 o show “Clara mestiça”, dirigido por Bibi Ferreira. Ainda neste ano, gravou o LP “Clara”, com grande sucesso para a música “Portela na avenida” (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro). Contou com a participação especial da Velha-Guarda da Portela nesta faixa. Também em 1981, a Odeon lançou uma coletânea intitulada “Sucesso de ouro”. No ano posterior, participou do LP “Kasshoku”, lançado pela gravadora Toshiba/Emi, do Japão e gravou um especial para a emissora de TV NHK.
Nesse mesmo ano, apresentou-se na Alemanha ao lado de Sivuca e Elba Ramalho, sendo ovacionada pelo público alemão. Ainda em 1982, lançaria seu derradeiro LP, “Nação”, faixa-título composta por João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio.
Clara Nunes faleceu no Sábado de Aleluia do ano de 1983, após sofrer complicações em uma cirurgia, depois de 28 dias no CTI. Seu corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O enterro, no dia 2 de de maio no cemitério São João Batista, foi acompanhado por uma multidão de fãs e amigos. Em sua homenagem, a rua em Madureira onde fica a sede da Portela, sua escola de coração, recebeu seu nome.
Desde sua morte, vários selos têm lançado coletâneas de sua obra tanto no Brasil quanto no exterior, mas merece destaque a produção feita pela seu ex-marido Paulo César Pinheiro e também a reedição feita pela EMI-Odeon da sua obra completa: 16 LPs, com as capas reproduzidas do original, remasterizados no Estúdio Abbey Road, em Londres.
Clara Nunes fez sucesso na América Latina, Espanha, Portugal, Israel, Alemanha e Japão, mas era com Angola que ela mais se identificava e para onde viajou algumas vezes. Para ela, os três maiores estadistas do Terceiro Mundo eram Agostinho Neto, poeta e líder revolucionário angolano, Fidel Castro e Juscelino Kubitschek.
Em 2002 foi lançado o livro “Velhas Histórias, memórias futuras” (Editora Uerj), de Eduardo Granja Coutinho, no qual o autor faz várias referências à cantora.
No ano de 2003, em comemoração aos seus 60 anos, foi lançado pela gravadora DeckDisc o CD duplo “Um ser de luz - saudação à Clara Nunes”, produzido por Paulão Sete Cordas. O trabalho contou a participação de diversos cantores e cantoras interpretando parte de seu repertório.
Em 2004 a gravadora EMI Music lançou uma caixa com nove CDs reunindo os 16 discos solos e ainda raridades e participações da cantora em discos alheios e tributos, além da reedição dos primeiros discos da cantora, fase na qual interpretava versões de canções italianas, francesas e boleros românticos.
No ano de 2005 a gravadora EMI lançou a coletânea “Clara Nunes canta Tom e Chico”, na qual compilou algumas gravações de discos anteriores da cantora, entre elas: “Apesar de Você”, “Umas e outras”, “Desencontro”, “Morena de Angola” e “Novo amor”, de Chico Buarque. De Tom Jobim e parceiros, foram incluídas “Insensatez”, “A felicidade” e “Sabiá”, da dupla Tom e Chico.
Em sua homenagem
Fundou o Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro junto com o marido Paulo César Pinheiro.
Em 1988, Maria Gonçalves, irmã de Clara Nunes, reuniu em Caetanópolis várias peças do vestuário da cantora, adereços e objetos pessoais e criou uma sala que abriga o acervo de sua obra em um espaço anexado à creche que leva o seu nome.
Em 2004 a Prefeitura de Caetanópolis inaugurou o Instituto Clara Nunes, anexo à Creche Clara Nunes, ambos coordenados por Maria Gonçalves.
O músico Márcio Guima, sobrinho da cantora, está coordenando a criação do futuro “Museu Clara Nunes” com apoio de empresas de Minas Gerais.
Em 2007 foi lançada a biografia “Clara Nunes - Guerreira da Utopia”, do jornalista Vagner Fernandes. O livro trouxe entrevistas com compositores e intérpretes, além de familiares e amigos.
A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro também lhe prestou homenagem nomeando “Vila Olímpica Clara Nunes” um conglomerado de esportes para a comunidade do bairro Fazenda Botafogo, localizado próximo ao bairro de Acari e do município de São João de Meriti.
Discografia
A voz adorável de Clara Nunes (1966) EMI-Odeon LP
Rádio Inconfidência de Minas Gerais (1967) EMI-Odeon LP
Você passa eu acho graça (1968) Odeon LP
A beleza que canta (1969) EMI-Odeon LP
Clara Nunes (1969) Odeon Compacto simples
Clara Nunes (1971) Odeon LP
Clara Clarice Clara (1972) EMI-Odeon LP
Clara Nunes (1973) Odeon LP
Alvorecer (1974) Odeon LP
Brasileiro profissão esperança (1974) Odeon LP
Claridade (1975) Odeon LP
Canto das três raças (1976) Odeon LP
As forças da natureza (1977) EMI - Odeon LP
Guerreira (1978) EMI-Odeon LP
Clara Nunes (1978) EMI - Odeon LP
Clara esperança (1979) EMI - Odeon LP
Clara Morena [198?] EMI - Odeon LP
Brasil mestiço (1980) EMI LP
Clara (1981) EMI - Odeon LP
Nação (1982) EMI - Odeon LP
A Deusa dos Orixás (1984) Som Livre LP
Alvorecer (1985) Som Livre LP
Clara Nunes - 10 anos (1993) Som Livre LP/CD
Clara Nunes canta Tom e Chico (2005) EMI CD
Sobras repletas (2006) AMAR/CPC/UMES CD
Crítica
Por Mauro Ferreira
Com um dos fraseados mais límpidos e luminosos da música brasileira, Clara Nunes saiu de cena, em abril de 1983, como uma das vozes do samba. Posição que jamais teria alcançado se tivesse persistido no caminho equivocado de seu primeiro elepê, “A voz adorável de Clara Nunes, lançado em 1966 com um punhado de boleros. Foi somente ao abraçar o samba — primeiro sob a batuta do radialista Adelzon Alves e, depois, com a orientação do compositor Paulo César Pinheiro —, que a “mineira guerreira” encontrou o sucesso e o carinho popular. Esta trajetória pelo mundo do samba foi percorrida por Clara com mais firmeza a partir de 1971, mas o divisor de águas na sua carreira foi o disco “Alvorecer”, de 1974. A reboque do sucesso de “Conto de areia”, um samba melodioso de sotaque mais baiano do que carioca, o elepê vendeu 300 mil cópias e, mais do que isso, quebrou o tabu — então vigente na indústria fonográfica — de que mulher não vendia disco. Em 1975, o LP “Claridade” repetiria o êxito, com os hits “O mar serenou” e “A deusa dos orixás”. Clara chegaria aos 400 mil discos vendidos — cifra que, em números de hoje, equivaleria a quase dois milhões de cópias.
Muito deste inicial sucesso popular de Clara se deveu à sua incursão pelo mundo do candomblé. Ao cantar músicas que evocavam os orixás, a cantora inovou e conquistou o povo das classes menos favorecidas. Mas a intérprete foi sábia ao não persistir neste caminho. A partir de 1976, quando seus discos passaram a ser produzidos por Paulo César Pinheiro, a cantora encontrou, enfim, a maturidade no canto e na seleção do repertório. Clara nunca abandonaria por completo os sambas de temática afro, mas deixou de fazer deles a base de seu sucesso. Apesar de relativa queda nas vendagens, seus discos não deixaram de ser consumidos pelo grande público. Dentro de uma discografia das mais dignas da MPB, vale destacar títulos como “As forças da natureza” (1977), que juntou na ficha técnica nomes como Clementina de Jesus e a Velha-Guarda da Portela, e “Brasil mestiço”, disco de 1980 que expandiu o universo musical da cantora, que, sem deixar de cantar samba, passeava também pelos mais diversos ritmos brasileiros.
O último disco de Clara, “Nação”, saiu em fins de 1982. Era mais um retrato bem-acabado do canto maduro de uma estrela, que ainda ilumina com sua voz os corações dos amantes do samba.
Fonte: http://claranunesvozdeouro.blogspot.com e Dicionário Cravo Albin de Musica Popular Brasileira.
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